Racismo e língua portuguesa – uma relação silenciosa

Por Pedro Valadares

Antes de tudo, é importante frisar que me expresso do meu lugar de fala, homem branco, logo nada do que eu disser expressará de forma totalmente real os males do racismo, já que não passei diretamente por tal experiência. Contudo, isso não me impede de ver as consequências que essa chaga traz para a sociedade brasileira.

Você, com certeza, já deve ter ouvido algumas dessas expressões: “não sou tuas negas”, “amanhã é dia de branco”, “serviço de preto”, “cabelo ruim”, “cabelo bombril” entre tantas outras. Todas elas buscam inferiorizar os negros. Elas são fruto de um racismo histórico e de um passado de mais de 300 anos de escravidão. É sempre importante lembrar que o Brasil foi um dos últimos países a se livrar dessa abominação.

Esse contexto sociocultural se reflete de forma direta na língua portuguesa, como destaca Luiz Antônio Marcuschi.  “Deve-se ter clareza quanto ao fato de que nossa compreensão está ligada a esquemas cognitivos internalizados, mas não individuais e únicos. Assim, a percepção é, em boa medida, guiada e ativada pelo sistema sociocultural internalizado ao longo da vida”.

O pesquisador destaca que as representações coletivas precedem e servem de base para elaborações individuais. Ou seja, o racismo sistêmico e velado que existe na sociedade brasileira, propaga-se de forma silenciosa por meio da língua, aprofundando ainda mais as cicatrizes de um passado sombrio e mal resolvido.

Nesse contexto, é necessário uma ação coordenada para evidenciar as armadilhas racistas contidas no nosso idioma. Como diz Marcuschi, “a língua é um sistema ligado a práticas sócio-históricas e não funciona no vácuo”. E explica ainda que é “com ela [que] guiamos sentidos e construímos mundos, mas não por força de uma virtude imanente à própria língua como tal e sim pelo esforço dos falantes”.

Não se trata de aqui de fazer o que é politicamente correto, mas sim de tomar consciência do poder social da língua e buscar caminhos que não reforcem o sofrimento de grupos historicamente injustiçados. 

Pedro Valadares – jornalista especializado em revisão de texto. É coordenador do Clube do Português.

 

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1 Comment

  1. Interessante.

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